Em tempos de pressões crescentes no ambiente de trabalho, o historiador e escritor Leandro Karnal defendeu, em entrevista à revista Exame, a importância de priorizar a saúde mental no meio corporativo. Com seu olhar reflexivo e direto, ele destacou que o equilíbrio emocional torna os profissionais melhores a cada dia e criticou o que chamou de “romantização do autoritarismo” nas lideranças.
“Tem gente que ainda acha bonito quando o chefe grita, humilha, exige o impossível. É como usar anabolizantes: o efeito vem rápido, mas destrói por dentro”, comparou Karnal. Segundo ele, o medo pode funcionar no curto prazo, mas leva ao desgaste e à exaustão dos colaboradores.
Apesar dos avanços recentes nas discussões sobre bem-estar no trabalho, o historiador afirma que ainda estamos longe de superar a cultura tóxica. “O autoritarismo continua sendo admirado quando entrega resultados, mesmo que custe a saúde de quem trabalha”, disse.
Karnal reconheceu que não é simples deixar um ambiente nocivo, especialmente diante das dificuldades econômicas. “Muita gente aguenta situações insuportáveis por causa dos boletos. Mas precisamos lembrar que a vida é um valor absoluto”, afirmou. Ele compartilhou que também já permaneceu mais tempo do que deveria em empregos ruins e aconselhou: “Corte gastos, reinvente-se, procure algo melhor”.
A recente atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige medidas para promoção da saúde mental nas empresas, foi vista por Karnal como um avanço. “Não resolve tudo, mas mostra que o tema está ganhando espaço onde precisa: na alta gestão”, avaliou. Para ele, a saúde mental precisa deixar de ser responsabilidade exclusiva do RH e se tornar um compromisso de toda a estrutura corporativa.
Por fim, ele fez um alerta sobre a prática real da ética nas organizações. “Toda empresa envolvida em escândalos tinha um código de ética. O que importa é aplicar de verdade, inclusive se isso significar perder contratos que ferem princípios”, concluiu.