Você sabia que nem toda dor menstrual é “normal”? Sintomas como cólicas intensas, inchaço abdominal, dor pélvica fora do período menstrual, dificuldade para evacuar e até dor durante as relações sexuais podem ser sinais de endometriose. A doença afeta cerca de 15% das mulheres em idade fértil, mas ainda é pouco compreendida e frequentemente negligenciada.
O ginecologista e especialista em endometriose Bruno Bonilha explica que muitos sintomas acabam confundidos com o ciclo menstrual, o que atrasa o diagnóstico. Em Sorocaba (SP), estima-se que quase 20 mil mulheres convivam com a doença, muitas sem saber.
Segundo o médico, a endometriose ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, podendo atingir diferentes regiões do corpo. “A cada ciclo menstrual, esse tecido também sangra, mas o sangue não tem para onde escapar, causando inflamação, dor e, em alguns casos, infertilidade”, explica.
Ele ressalta que a dor recorrente não deve ser encarada como algo rotineiro: “Existe um estágio da doença que ainda não aparece em exames, mas já está causando dor. O desafio é justamente diagnosticar nessa fase inicial.”
A luta de 15 anos de Juliara Melo
A demora no diagnóstico marcou a vida de Juliara Melo, de 36 anos, que enfrentou sintomas por quase 15 anos até ser diagnosticada. “Desde criança eu tinha dor abdominal, diarreia e muito inchaço. Fui tratada por anos como se tivesse Doença de Crohn, mas não melhorava”, conta.
As dores intensas e as dificuldades para engravidar levaram a nova investigação, quando descobriu um endometrioma no ovário e focos da doença no útero. Aos 25 anos, recebeu a recomendação de passar por cirurgia. “Fiquei arrasada, pois queria engravidar e tinha acabado de casar. Foi assustador”, relembra.
Ela passou por duas cirurgias: a primeira em 2018, que não retirou todos os focos, e a segunda em 2022, que durou 15 horas e resultou na retirada de parte do intestino, das trompas, do ovário e do útero.
Apesar das complicações, Juliara conseguiu realizar o sonho da maternidade. Cerca de um ano após a primeira cirurgia, engravidou e deu à luz, mesmo com uma gestação considerada de risco.
Além da saúde física, a endometriose afetou profundamente seu emocional. “Vivia muito triste, tinha oscilações de humor e fazia acompanhamento psicológico. Não era só a doença, mas o medo de não conseguir engravidar e o medo do desconhecido”, desabafa.